A FARRA DOS EVENTOS ENQUANTO A SAÚDE COLAPSA EM LONDRINA
O que está acontecendo com a saúde pública de Londrina já não pode mais ser tratado como falha de gestão. Os fatos apontam para algo mais grave: uma inversão explícita de prioridades, e, possivelmente, um desprezo inaceitável pela população.
Relatórios do Tribunal de Contas do Estado do Paraná já registram a deterioração dos indicadores. Mas os números frios não capturam o drama vivido diariamente: pacientes aguardando até 10 horas em UPAs, crianças submetidas à mesma espera no PAI e no Hospital Infantil de Londrina. Isso não é exceção, virou rotina.
Enquanto isso, o abandono se materializa em obras paradas, como a UPA do Jardim do Sol, hoje símbolo do desperdício de dinheiro público. Unidades básicas com reformas atrasadas, mato alto tomando conta, falta de insumos elementares, há relatos de postos sem toner para imprimir receitas. Três PAMs prontos seguem fechados, estrangulando ainda mais o sistema. Consultas básicas levam até seis meses. O colapso é visível, mensurável e, sobretudo, evitável.
Diante desse cenário, a conduta da Secretaria de Saúde levanta questionamentos que não podem mais ser ignorados.
Sob a gestão de Vívian Feijó, a prefeitura opta por investir energia, estrutura e servidores na Exposição Agropecuária de Londrina. Um estande, em meio ao caos sanitário, escancara o distanciamento entre a gestão e a realidade da população.
Mais grave: profissionais da saúde são deslocados de suas funções essenciais para compor a vitrine institucional. Em outras palavras, tira-se atendimento de quem precisa para sustentar agenda de evento. Qual o interesse público concreto nisso?
E o padrão se repete.
Uma comitiva com mais de 20 integrantes foi enviada para Foz do Iguaçu, gerando um custo de dezenas de milhares de reais aos cofres públicos. Em um sistema que falta o básico, esse tipo de gasto deixa de ser apenas questionável, passa a ser moralmente indefensável.
A sequência de decisões levanta uma suspeita legítima: a saúde deixou de ser prioridade para dar lugar à política de aparência. Eventos, viagens e agendas institucionais ganham protagonismo, enquanto a população enfrenta filas, dor e abandono.
Não se trata mais de narrativa política. Trata-se de responsabilidade pública.
Se há recursos para eventos, por que não há para reabrir os PAMs?
Se há equipe para estandes, por que falta gente nas unidades?
Se há verba para comitivas, por que falta o básico nos postos?
A conta não fecha.
E, enquanto a gestão não responde, quem paga é sempre o mesmo: o cidadão.
A “Dona Maria” segue esperando, mas, diferente da gestão, ela não pode escolher ignorar a realidade.