NO NOVO TEMPO, A SAÚDE TEM FORÇA POLICIAL AO INVÉS DE MÉDICOS
A imagem que marcou a saúde de Londrina na última semana não foi a inauguração de uma unidade, a contratação de novos médicos ou a redução das filas de espera. A imagem que ficou gravada na memória dos londrinenses foi a de um pai e uma mãe sendo presos dentro do PAI enquanto aguardavam atendimento para seu filho após horas de espera.
O episódio, registrado em vídeo e amplamente compartilhado nas redes sociais, provocou indignação e revolta. As imagens mostram a atuação da Guarda Municipal dentro da unidade de saúde e rapidamente se tornaram assunto em toda a cidade.
A cena levantou uma pergunta inevitável: onde estavam os médicos que aquelas famílias esperavam encontrar?
Segundo relatos de pessoas que estavam no local, mães e pais aguardavam por mais de cinco horas para atendimento pediátrico. Crianças cansadas, famílias desesperadas e uma unidade novamente superlotada formavam o cenário daquela noite.
Mas, ao invés de uma resposta através do reforço médico, o que chamou atenção foi a chegada de um aparato ostensivo de viaturas.
Uma situação que muitos londrinenses consideraram simbólica do atual momento da saúde municipal: quando faltam médicos, sobram forças de segurança para conter a revolta de quem já perdeu a paciência após horas de espera.
O episódio não surgiu do nada. Ele é consequência de uma crise que há meses vem se agravando em Londrina.
Prontos-socorros lotados.
UPAs com esperas que chegam a várias horas.
O PAI convivendo frequentemente com superlotação.
Pacientes reclamando da demora nos atendimentos.
Famílias cada vez mais frustradas com a dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Apesar disso, o que a população tem visto da administração municipal é uma tentativa constante de transmitir a sensação de normalidade.
Basta um dia de movimento reduzido em alguma unidade para que a secretária municipal de Saúde, Vivian Feijó, apareça nas redes sociais anunciando avanços e afirmando que a situação está melhorando.
Nos últimos dias, até mesmo o presidente da Câmara Municipal, vereador Emanoel Gomes, passou a gravar vídeos em unidades de saúde apresentando um cenário que, para muitos usuários do sistema, está distante da realidade enfrentada diariamente.
Mas nenhuma gravação em rede social consegue apagar a imagem que marcou a saúde de Londrina na última semana. Um pai e uma mãe foram presos e conduzidos à delegacia dentro do PAI após horas aguardando atendimento para seu filho. O episódio ganhou contornos ainda mais dramáticos porque, segundo relatos que circularam após a ocorrência, a criança permaneceu por cerca de 40 minutos sem os pais até a chegada de outro familiar e do Conselho Tutelar. A cena revoltou a população e transformou-se em símbolo da indignação popular com a situação da saúde pública municipal. Para muitos londrinenses, trata-se de uma situação sem precedentes: famílias procurando atendimento médico para seus filhos e acabando envolvidas em uma ocorrência policial dentro de uma unidade de saúde.
Nos bastidores da saúde, as críticas à condução da pasta são cada vez mais frequentes.
O blog recebeu informações de pessoas ligadas ao Hospital Universitário e também de pessoas com atuação na própria Secretaria Municipal de Saúde. Segundo esses relatos, a falta de empatia e sensibilidade diante do sofrimento da população é uma das principais críticas direcionadas à atual secretária.
De acordo com as informações recebidas, comportamentos considerados arrogantes, prepotentes e distantes da realidade enfrentada pelos pacientes e pelos próprios servidores seriam características frequentemente atribuídas à forma de gestão de Vivian Feijó. Pessoas que conviveram profissionalmente com a secretária afirmam que esse perfil não seria novidade e que a postura estaria contribuindo para o desgaste da relação entre a gestão e os profissionais da área.
Outro ponto que segue gerando questionamentos é a forma como o prefeito Tiago Amaral viabilizou a permanência de Vivian Feijó no comando da Secretaria de Saúde.
A administração municipal promoveu alterações legislativas que permitiram à secretária acumular a remuneração recebida junto ao Hospital Universitário com os vencimentos do cargo de secretária municipal. A medida foi alvo de críticas e questionamentos por parte de adversários políticos, que apontam possíveis irregularidades e alegam haver dúvidas sobre a constitucionalidade da legislação aprovada.
Na prática, o resultado é que Vivian Feijó passou a receber simultaneamente os valores referentes às duas funções exercidas, fazendo com que sua remuneração total se aproxime dos R$ 50 mil mensais.
Enquanto isso, a população continua enfrentando filas, demora nos atendimentos e dificuldades para acessar serviços básicos de saúde.
O contraste entre a elevada remuneração da principal gestora da saúde municipal e a realidade enfrentada pelos pacientes tem alimentado ainda mais a indignação popular.
Passado um ano e meio de gestão, o que a população vê não é a saúde modelo prometida durante a campanha eleitoral.
O que vê são filas.
O que vê são unidades lotadas.
O que vê são mães chorando por atendimento para seus filhos.
O que vê são profissionais sobrecarregados.
E agora vê também pais sendo presos dentro de uma unidade de saúde após horas de espera.
A cena ocorrida no PAI talvez seja o retrato mais emblemático do atual momento da saúde pública de Londrina.
Uma cidade onde faltam médicos.
Uma cidade onde faltam respostas.
Uma cidade onde falta sensibilidade para compreender o sofrimento de quem depende do sistema público.
E uma cidade onde, para muitos cidadãos, a impressão que fica é que a administração municipal se preocupa mais em produzir vídeos para as redes sociais do que em resolver os problemas que continuam sendo enfrentados diariamente pela população.
No novo tempo prometido pela atual gestão, a imagem que ficou foi a de um pai e uma mãe sendo presos e conduzidos à delegacia enquanto buscavam atendimento para seu filho, deixando a criança temporariamente sem seus responsáveis dentro de uma unidade de saúde.
Uma cena que dificilmente será esquecida pelos londrinenses.
Porque quando uma cidade passa a discutir a prisão de pais dentro de uma unidade de saúde ao invés da contratação de médicos e da melhoria dos atendimentos, fica evidente que algo está profundamente errado.
No novo tempo, a população esperava encontrar médicos. O que encontrou foi força policial.
